Velejo com todos os ventos.

Dentro e fora das "aspas".

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Das Coisas Que Realmente Importam.

(Crônica de Ana Laura Nahas, publicada em A Gazeta, datada de 18 de dezembro de 2010)


Era essencial entender as histórias que eles contavam, ou ouvir canções que eles cantavam, olhar as rugas que carregavam e que diziam, também, sobre histórias e sobre canções, sobre amores perdidos ou quem sabe um romance para a vida inteira, sobre um filho que partiu antes do que devia ou quem sabe a família toda ao redor da mesa, sobre a derrota no futebol ou quem sabe uma alegria.

(Um café, um sorriso, um texto bem escrito, uma descoberta, uma resposta, um convite, um disco inteiro do Geraldo Pereira, brigadeiro de colher, cinema, boteco, a madrugada sem despertador no dia seguinte, sonho, Paris, Nova York, livro, travesseiro, cheiro de amêndoa no cabelo, um encontro, uma alegria enfim).

Era essencial diminuir o ritmo, acertar o movimento, ajeitar o andamento, um intervalo depois do outro e quem sabe uma pausa semínima, como se aquela terça-feira à noite de trabalho e cansaço fosse um sábado de sol, feira, planta, faxina, família ou poema do Vinicius, “não há nada como o tempo para passar foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal” amém.

Era essencial estar ali, aprender um pouco além dos livros, encontrar um mundo diferente do habitual, reconhecer o esforço alheio de não desistir apesar das provas em contrário, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas, insistir em nome de uma vontade maior ou quem sabe uma alegria.

(Nutella, esperança, samba, sereno, caipirinha de melancia, bicicleta na praia, um disco inteiro dos Beatles, uma semana toda sem dores na coluna, amigos de verdade, violão e cantar desafinado, os jornais do final de semana espalhados pelo chão, aquela presença silenciosa, suave e distante, uma alegria enfim).

Era essencial como as coisas que realmente importam, um olhar sincero, algum conforto, música boa, aprender, sorrir, acreditar, sonhar, ouvir, dançar, uma casa inteira de livros e discos e a horta vigorosa feita de manjericão, sálvia, hortelã, erva cidreira e nada de coentro (eca).

Era essencial como aquela sensação boa que começa na ponta do dedo e toma o corpo inteiro, coração e cérebro especialmente, e ainda os braços, o tronco, as maçãs do rosto, os dedos, as pernas, tudo.

Era essencial como as coisas que realmente importam, honestidade, sinceridade e, sempre que possível, simplicidade, movimento, abraço, planos para o futuro, óculos para longe, silêncio, gargalhadas, encontros e reencontros.

Era como são, também, canções e colo, desapego, estrada, chocolate, afetos e, se ainda assim for preciso, a possibilidade redentora de sentar e chorar diante das expectativas desfeitas.

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Quais as coisas que realmente importam para você?


Estive de férias, mas voltei! ^^

Das coisas inconfessáveis.

(Crônica de Ana Laura Nahas, publicada em A Gazeta, datada de 10 de maio de 2010)

Primeiro é preciso desprendimento, deixar de lado a vergonha e o peso, esquecer censuras, reprimendas, reprovações e repreensões, acreditar com o corpo inteiro na ideia de que a palavra diversão, como a música e os dias de sol, só pode ter um sentido bom, nunca o contrário. Depois é preciso humor, investir no riso e no esquecimento (a vida tem um pouco de literatura, ou muito), confiar com a cabeça inteira na certeza de que pouca coisa na vida facilita mais o resto todo do que achar graça de si mesmo.

Daí fica fácil. Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo. Conta que não vive sem Lulu Santos e Zizi Possi (menos as versões pro Italiano) ou que adora “Jaded” do Aerosmith (inclusive o refrãozinho gago), que ouve, dança e sabe absolutamente todas as letras das Spice Girls ou, sendo sincero como não se pode ser, que não perde um show dos Engenheiros do Hawaii.

Conta que por ele você é que nem aquela canção do tango no teto, menos a parte de tomar banho gelado no inverno. Conta que sente saudades do sotaque dele, dos óculos, da camiseta de algodão e das cuecas à mostra pra jogar charme. Conta dos medos próximos, escorpião, barata, solidão, dívida no cartão de crédito e escuro, e daqueles tão distantes quanto Salinópolis, Ametista do Sul ou Aparecida do Taboado. Conta das madrugadas, das vontades e do amor guardado dentro do pote de guardar amores. Conta quase tudo.

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo, que não sai do carro enquanto o rádio não termina de tocar aquela do Roupa Nova (pra que tanta pressa de chegar?). Conta que foi ver a apresentação da Joana no velho teatro do Centro da cidade quando seu namorado era um sujeito ocupado que não mandava notícias nem dava um sinal e que – ai ai – também adora o Fábio Júnior.

Conta até o que não devia, inclusive algumas tristezas dos anos passados e os próprios defeitos (alguém disse, acho que Clarice Lispector, que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro).

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta que já gosta, apesar do pouco tempo, mas que tem vontades excessivas e demandas às vezes exageradas. Conta das alegrias de agora e de algumas dúvidas sobre logo depois. Conta quase tudo, sem peso ou vergonha, sem censura ou reprovação, sem maldade ou mau humor. Você confessa as coisas, e pronto.

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E você, confessa? rs

Tatuagens.

(Crônica de Ana Laura Nahas, publicada em A Gazeta, datada de 24 de maio de 2010).

Me dizem que é preciso coragem para ter uma tatuagem; imagem, palavra, marca, um troço eterno enquanto dure o corpo, uma frase inteiraque num momento faz sentido, mas no outro vai saber, um desenho feito à mão numa tarde como aquela todas as tardes seguintes, a canção que agora emociona, mas ano que vem vai saber.

Respondo que sim, verdade, precisa coragem (e um pouco de resistência à dor),– fato! – porque quanto mais definitiva são as escolhas maior seu peso, seu medo, seus ais, ainda mais nestes tempos de aversão ao risco e apego à segurança, de conceitos antigos, nós difíceis de desatar, lembranças que não desmancham, manias velhas, mundo torto.

Mas – emendo – todas as escolhas são de alguma maneira definitivas, deixam marcas, mesmo as menores: desligar a TV a cabo porque já não há mais quintas de “Men in Trees” nem domingos de “Mesa Redonda”, ouvir “Carolina na Janela” no rádio do carro para chegar feliz no trabalho, comer saudável ou caprichar na batata frita, fazer promessa para Santo Expedito ou esquecer aquela causa urgente (e um pouco ridícula), escolher o roquezinho do Vitor Paiva para embalar um sábado um tanto estranho, telefonar para dizer disso, ou silêncio.

“Saudade, me largue agora

Me deixa ir embora daqui

Eu sei, você me adora

Mas larga a minha mão

Que eu vou

E não vou mais voltar”

Escolhas nos fazem esquecer rostos, levantar copos, estragar corpos, largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, apagar nomes, deixar os filmes passarem, as músicas tocarem, os retratos sumirem, o relógio engolir as tarefas enquanto uma história de personagens contraditórios toma todo o pensamento, e o final feliz parece cada vez mais distante.

Escolhas são inevitáveis, às vezes injustas e inconseqüentes, às vezes pensadas, às vezes acertadas, às vezes nem uma coisa nem as outras. À sua maneira, são definitivas, como (guardadas as devidas proporções) uma flor tatuada na canela, uma estrela grudada no pescoço, um dragão marcado no meio das costas. Porque – alguém já disse (um filósofo, acho) ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.

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Amanhã uma amiga vai terminar a tatoo que começou há umas duas semanas. Rosas. Confesso que entro no estúdio e a vontade é fazer outra! *.* (Fez a primeira, pronto! Vem a vontade da segunda - tenho estrelas no pescoço). Então... Coming soon! (Nas costas!) =P [Ahhhh! Dói? Naaaaada! Arde e queima ao mesmo tempo! É preciso sim, de coragem e um pouco de resistência à dor. Mas ahhh... Seu eu que sou fraca pra biomédicas fiz, você também faz! Só pense direito nessa marquinha. É pra sempre...].